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Nos primeiros começos de Brasília

 
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Distância e pluralidade

Nessa crônica, Clarice não acredita que o mito positivista de racionalização é o único possível para Brasília. Apesar de todos os conflitos e metáforas dissonantes, tudo o que ocorre no texto têm Brasília como ponto pivotal, como origem de sensações inquietantes. Por isso, estabelecemos Brasília como o princípio norteador do projeto, de modo que ela ficasse no centro sempre que aparecesse. 

O texto é muito marcado por períodos, impedindo que o leitor faça uma leitura tranquila e contínua, oposto ao ideal de Brasília, pensada para ser ampla, contínua, sempre com o horizonte em vista. Isso é reforçado no modo confessional, que parece escrita automática. As frases e imagens são muitas vezes contraditórias, fazendo com que Brasília gere espanto e não, necessariamente, beleza. 

Clarice não aceita esse ou outro mito unívoco, e cria outros ela mesma: de uma civilização antiga, de criação da cidade, além de citar outras mitologias. Isso obriga a deixar o sentido em aberto, sem delimitar uma interpretação única para o que é a Brasília real. Por isso, Brasília só aparece na última página, sozinha, para que o leitor decida qual a interpretação dele de Brasília, assim como Clarice deixa em aberto no texto.

 
 
Projeto feito em colaboração com Gabriela Araujo e Ana Elisa Ribeiro
 
 
 

distância e inquietação

Enquanto objeto, tentamos remeter ao visual de Brasília e ao projeto moderno de limpeza, branquidão, leveza e planejamento. A ênfase arquitetônica da cidade e de sua história fez com que optássemos por enfatizar a também a materialidade do livro, e fazer uma intervenção mecânica na estrutura do livro: o corte. Além disso, uma característica importante do projeto urbano de Brasília é que tudo é muito distante, mesmo que pareça perto; isso inclusive é apontado por Clarice no texto. Assim, essa opção de afastar a palavra "Brasília" remete a esse distanciamento, a essa alienação da cidade.

Ao contrário do crescimento orgânico das cidades, Brasília se estabelece primeiro – invertendo o mito cristão da criação – e tudo o mais precisa se organizar em volta dela, mesmo que isso crie "paisagens de insônia". Por isso, no projeto, optamos os textos começam apenas quando Brasília chega no centro da página criando uma característica de imprevisibilidade apesar do que é calculado. Ou seja, a mancha se torna imprevisível, enquanto Brasília é estática e previsível.